Na clínica infantil, recursos lúdicos podem ser muito mais do que algo “bonito” ou “engajador”. Quando usados com intencionalidade, eles ajudam a tornar concretos temas que, para muitas crianças, ainda são difíceis de nomear, organizar ou comunicar. Os Curativos dos Direitos das Crianças entram justamente nesse lugar: como um recurso simples, visual e acessível, que pode apoiar conversas sobre cuidado, proteção, limites, emoções, necessidades e estratégias de enfrentamento.
A partir de uma perspectiva da Terapia Analítico-Comportamental Infantil (TACI), esse material pode ser útil tanto para observar repertórios quanto para ensinar novas habilidades. Já em diálogo com a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), ele também pode favorecer maior abertura para experiências internas difíceis, ampliação de linguagem emocional e aproximação de ações mais coerentes com aquilo que é importante para a criança, como segurança, respeito, vínculo, amizade e cuidado.


Abaixo, compartilho algumas possibilidades de uso clínico desse recurso na psicoterapia infantil e em intervenções com grupos.

1. Curativo como apoio para identificar emoções e necessidades: a criança pode escolher um curativo para representar algo que aconteceu e que a deixou triste, com medo, frustrada, irritada ou magoada. Em vez de focar apenas no “machucado”, a proposta pode ajudar a organizar a experiência: o que aconteceu, como ela se sentiu, o que pensou e do que precisava naquele momento.
Sugestões de Perguntas:
– O que aconteceu?
– Como seu corpo ficou?
– O que você sentiu?
– O que teria ajudado nessa hora?
Essa atividade favorece discriminação emocional, comunicação de necessidades e ampliação de repertório verbal sobre experiências internas.
2. Escolha do direito mais importante no momento espalhando os curativos e convidando a criança a escolher:
– O mais importante para ela hoje;
– O que toda criança deveria ter;
– O que às vezes falta;
– O que ajuda quando algo difícil acontece.
Essa proposta pode abrir espaço para conversar sobre rotina, família, escola, cuidado, proteção e apoio, além de permitir observar o que a criança já discrimina sobre suas próprias necessidades e contextos.
3. Mapa do corpo e sinais de experiência emocional: desenhar um corpo (ou usar um boneco) e colar os curativos em diferentes partes, relacionando cada escolha a sinais corporais, ações e necessidades.
Exemplos:
– Cabeça: pensamentos, preocupações, confusão;
– Peito: aperto, saudade, medo;
– Mãos: vontade de bater, brincar, pedir colo, se proteger;
– Pernas ou pés: vontade de fugir, ir embora, procurar alguém.
Esse tipo de atividade ajuda a criança a perceber pistas do próprio corpo, reconhecer respostas emocionais e ampliar consciência sobre como ela reage em diferentes situações.
4. História para analisar situações e respostas: os curativos podem ser usados em histórias com personagens que passaram por uma situação difícil e precisaram de ajuda, proteção ou reparação. A partir da narrativa, é possível explorar antecedentes, respostas e consequências de forma acessível para a criança.
Perguntas Úteis:
– O que aconteceu com esse personagem?
– O que ele sentiu?
– O que ele fez?
– Isso ajudou ou piorou?
– O que poderia ajudá-lo melhor?
Essa proposta pode ser especialmente útil com crianças que ainda falam pouco de si de forma direta, mas conseguem analisar situações por meio do brincar.
5. Curativo como lembrete de estratégia de enfrentamento: depois de identificar uma situação difícil, o curativo pode representar uma habilidade ou estratégia que a criança está aprendendo a usar: pedir ajuda, respirar, esperar, usar palavras, procurar um adulto de confiança, fazer uma pausa ou lembrar de um combinado. Assim, o curativo deixa de ser apenas um símbolo e passa a funcionar como um apoio concreto para ação, o que conversa muito bem com uma clínica mais comportamental e baseada em habilidades.
6. Identificação de rede de apoio e figuras de cuidado: o recurso também pode ser usado para mapear quem ajuda a criança quando algo acontece.
Sugestões de Perguntas:
– Quem ajuda quando você está triste?
– Quem você procura quando sente medo?
– Quem poderia colocar esse curativo com você?
– Quem ensina a se acalmar ou resolver um problema?
Essa atividade pode trazer informações importantes sobre vínculos, percepção de apoio, adultos de referência e repertório de busca de ajuda.
7. Trabalho com autoestima e autovalorização: os curativos podem ser associados a mensagens de cuidado, proteção e respeito. A proposta pode incluir frases como:
– “Toda criança merece…”
– “Eu preciso ser tratada com…”
– “Quando algo difícil acontece comigo, eu posso…”
Mais do que falar de autoestima de forma abstrata, aqui o foco está em fortalecer repertórios de autopercepção, autovalorização e reconhecimento de direitos básicos de cuidado e respeito.
8. Psicoeducação sobre direitos em linguagem acessível: os direitos da criança podem ser trabalhados de forma concreta, sem linguagem excessivamente jurídica, moralizante ou distante da experiência infantil. O curativo ajuda a transformar esse conteúdo em algo compreensível e aplicável ao cotidiano. Nesse sentido, o recurso pode ser usado para ensinar que toda criança precisa de proteção, escuta, cuidado, brincadeira, aprendizagem e ajuda quando algo não vai bem, e que pedir apoio também é uma habilidade importante.
9. Ritual de fechamento com foco em aprendizagem: ao final da sessão, a criança pode escolher um curativo para representar algo que aprendeu, percebeu ou quer tentar durante a semana.
Exemplos:
– Um sentimento que conseguiu nomear;
– Uma estratégia que quer lembrar de usar;
– Um pedido que deseja conseguir fazer;
– Um direito que compreendeu melhor.
Isso ajuda a consolidar a sessão, reforçar aprendizagem e favorecer generalização para fora do consultório.
10. Integração com desenho e situações do cotidiano: depois de escolher um curativo, a criança pode desenhar:
– Uma situação em que precisou de ajuda;
– Uma situação em que se sentiu protegida;
– Algo que a machucou por dentro;
– O que poderia ajudá-la da próxima vez.
Nessa proposta, o desenho funciona como apoio para organizar eventos, emoções, comportamentos e alternativas de resposta, ampliando a compreensão da criança sobre o próprio repertório.
11. Responsabilidade, reparação e escolhas mais flexíveis: com crianças maiores, o material pode ajudar a trabalhar situações em que alguém se machucou emocionalmente, focando não em culpa, mas em reparação, responsabilidade possível e novas escolhas.
Perguntas Úteis:
– O que aconteceu?
– O que você fez naquela hora?
– Isso ajudou?
– O que poderia ser feito diferente da próxima vez?
– O que ajuda a cuidar de uma relação quando algo ruim acontece?
Aqui, o foco está em construir flexibilidade comportamental e ampliar alternativas, em vez de apenas apontar erro ou reforçar rigidez.
12. Uso em grupo para treino de habilidades sociais: em grupos, oficinas ou intervenções coletivas, cada criança pode escolher um curativo e compartilhar uma situação em que precisou de ajuda, cuidado ou proteção. Depois, o grupo pode pensar junto em formas de responder, acolher ou resolver o problema. Essa proposta favorece escuta, empatia, ampliação de repertório social, aprendizagem por observação e construção de respostas mais cooperativas.

Mais do que um material lúdico para “falar sobre sentimentos”, trata-se de um recurso que pode ser usado com função clínica bem definida: apoiar a criança a reconhecer o que vive, nomear o que sente, compreender o que precisa e construir respostas mais flexíveis, cuidadosas e eficazes diante das experiências difíceis.

Às vezes, é justamente com recursos simples, concretos e sensíveis que a criança encontra um jeito possível de mostrar o que ainda não consegue dizer de outro modo.
Crédito das Imagens: childhood.org.br
