A chegada ao consultório é, muitas vezes, um momento de transição.
A criança pode chegar agitada, retraída, cansada, desconfiada ou ainda muito conectada ao que aconteceu antes de entrar na sala. Em alguns dias, pode estar disponível para brincar, conversar e se envolver logo de início. Em outros, talvez precise de mais tempo, previsibilidade e acolhimento para “aterrissar” no encontro. Foi a partir dessas observações na clínica infantil que nasceu a Calmaleta™.
A Calmaleta™ é uma proposta clínica autoral em desenvolvimento: um recurso composto por materiais lúdicos, sensoriais e expressivos, organizado para apoiar a transição entre a chegada ao setting e as demandas da avaliação psicológica ou da psicoterapia.
Ela não é uma maleta de objetos aleatórios – e também não oferece respostas prontas. Seu uso acontece por meio da escolha guiada, da experiência concreta e da mediação da profissional, sempre respeitando as respostas, preferências e sinais de cada criança.

Antes de pedir, é preciso acolher!
Em momentos de maior ativação, algumas crianças podem apresentar mais vigilância, tensão corporal, agitação, retraimento ou dificuldade para mudar o foco e se engajar em uma proposta. Nessas situações, processos importantes para o encontro clínico, como flexibilidade cognitiva, atenção, linguagem e elaboração, podem ficar temporariamente menos disponíveis.
Isso não significa que a criança não queira participar ou que não seja capaz de fazê-lo. Muitas vezes, significa apenas que seu corpo e sua mente ainda estão ocupados tentando lidar com o alerta, o desconforto ou a novidade daquele momento. Por isso, antes de esperar fala, elaboração ou desempenho, pode ser necessário oferecer um lugar para a criança aterrissar.
As experiências corporais, sensoriais e lúdicas não substituem a conversa, a reflexão ou a elaboração emocional. Elas podem antecedê-las, acompanhá-las ou ajudar a criar condições para que elas aconteçam com mais disponibilidade.
Como a Calmaleta™ funciona?
A proposta é simples, mas exige presença e observação clínica. A criança chega ao encontro. A profissional oferece algumas possibilidades de escolha, propõe uma experiência breve e acompanha o que acontece: a criança se aproxima? Recusa? Demonstra curiosidade? Prefere determinada textura? Parece mais confortável quando desenha, aperta, movimenta ou inventa uma história?
A partir dessa experiência, podem surgir mais condições para brincar, conversar, participar de atividades avaliativas ou simplesmente construir vínculo. Mais do que escolher “o objeto certo”, trata-se de acompanhar a resposta daquela criança, naquele dia e naquela situação.
Um mesmo recurso pode cumprir funções diferentes conforme a forma de uso, o momento clínico e as necessidades da criança. Por isso, a Calmaleta™ não é um protocolo fechado: ela é um recurso vivo, que ganha sentido na relação.

Os 4 Eixos da Calmaleta™
A organização da Calmaleta™ foi pensada a partir de quatro eixos que orientam a intenção clínica de seus materiais.
1. Acalmar o Corpo
Este eixo reúne recursos que convidam a experiências motoras e táteis mais previsíveis, como apertar, puxar, esticar e amassar. Brinquedos com diferentes texturas e níveis de resistência podem, para algumas crianças, funcionar como um apoio breve à organização corporal e à redução da tensão. A resposta, porém, é sempre observada individualmente.
Exemplos de Recursos: bolinhas de apertar, brinquedos de apertar, brinquedos de puxar e molas.
2. Engajar a Atenção
Em alguns momentos, a criança está muito concentrada em um estressor, em uma preocupação ou ainda pouco disponível para entrar na proposta clínica. Bolhas de sabão, jogos simples de encaixe e brinquedos visomotores podem favorecer uma aproximação gradual, concreta e breve. A intenção não é forçar foco, mas oferecer uma possibilidade de envolver-se no presente e, aos poucos, entrar no encontro.
Exemplos de Recursos: bolhas de sabão, brinquedos visomotores e jogos de encaixe.
3. Explorar pelos Sentidos
Texturas, consistências e resistências podem ser importantes caminhos de exploração e comunicação para muitas crianças. Massinhas, slimes e materiais táteis permitem observar preferências, incômodos, curiosidades e formas não verbais de expressão. Esse eixo não substitui uma avaliação do processamento sensorial nem se propõe como intervenção de integração sensorial; ele orienta uma escuta clínica atenta às respostas sensoriais que surgem no encontro.
Exemplos de Recursos: slimes, massinha de modelar e brinquedos com diferentes texturas.
4. Expressar Emoções
Nem toda emoção precisa ser nomeada imediatamente para poder ser acolhida. Desenhos, pelúcias, personagens, fantoches e brincadeiras simbólicas podem ajudar a criança a representar experiências internas por meio de histórias, gestos, imagens e narrativas. Assim, aquilo que ainda não consegue ser dito pode encontrar outros caminhos de expressão e compartilhamento.
Exemplos de Recursos: brinquedos de pelúcia (para acolhimento e projeção) e prancha de desenho (para externalização visual).

Escolha, Mediação e Construção de Repertório
Um dos aspectos mais importantes da Calmaleta™ é que a criança participa ativamente do processo. Com a mediação da profissional, ela pode experimentar diferentes possibilidades, reconhecer suas respostas e, gradualmente, descobrir o que parece ajudar em determinados momentos.
- “Isso ajudou hoje?”
- “Você quer escolher de novo?”
- “Parece que seu corpo gostou mais desse.”
- “Da outra vez ajudou; será que hoje você precisa de outra coisa?”
Essas pequenas experiências podem favorecer a construção gradual de um repertório de estratégias que façam sentido para aquela criança. Em vez de ensinar que existe uma única forma de se regular, a proposta convida à curiosidade, à experimentação e ao reconhecimento das próprias necessidades.

O que a Calmaleta™ busca favorecer?
- Maior disponibilidade corporal e atencional para o encontro clínico;
- Aproximação gradual e construção de confiança;
- Observação de escolhas, preferências e sinais de conforto ou desconforto;
- Expressão emocional verbal e não verbal;
- Participação ativa da criança na descoberta de recursos que podem ajudá-la.
Por ser uma proposta autoral em desenvolvimento, esses aspectos devem ser compreendidos como hipóteses clínicas e indicadores observáveis, não como resultados de eficácia já estabelecidos.
A literatura que inspira a proposta sustenta princípios importantes, como a relevância da corregulação, do brincar, da relação entre estresse e disponibilidade cognitiva e da atenção às diferenças individuais nas experiências sensoriais. Ainda assim, é a escuta cuidadosa de cada criança que orienta o uso da Calmaleta™.
No fim das contas, a Calmaleta™ não é apenas uma maleta com recursos lúdicos. Ela representa uma forma de compreender a clínica infantil: uma clínica que reconhece que a criança comunica muito pelo corpo, pelos sentidos, pelo brincar e pela relação.
Antes de pedir que ela explique, produza ou se organize, talvez possamos oferecer presença, escolha e um lugar para chegar.
EDIÇÃO EM AGOSTO DE 2026: A Calmaleta™ foi apresentada no congresso Concriart 2026 como um recurso lúdico de apoio à regulação na clínica infantil.
Sugestões de Leitura:
SIEGEL, D. J.; BRYSON, T. P. O Cérebro da Criança.
SHANKER, S. Self-Reg: How to Help Your Child (and You) Break the Stress Cycle and Successfully Engage with Life.
GROSS, J. J. (Ed.). Handbook of Emotion Regulation.
VERAKSA, A. N. et al. Non-Therapeutic Play to Overcome Negative Emotional Symptoms and Improve Emotional Intelligence in Children Aged 3-7: A Systematic Review. Frontiers in Psychology, 2025.
PILLER, A. et al. Systematic Review of Sensory-Based Interventions for Children and Youth (2015-2024). Frontiers in Pediatrics, 2025.
Deixo aqui um agradecimento ao psicólogo Dan Roger Pozza, que sugeriu o nome #calmaleta para essa maleta tão especial.