Quem nunca abriu uma ficha de anamnese e ficou olhando para um campo escrito apenas “socialização”, “contexto familiar” ou “trajetória escolar”, sem saber exatamente o que perguntar?
Essa foi uma dificuldade que eu mesma tive no início da prática clínica. A anamnese, para mim, foi algo que precisei aprender e desenvolver ao longo dos anos como estudante de Psicologia. No começo, meu foco era muito voltado a responder e completar o formulário, como se, caso ele não estivesse totalmente preenchido, eu não tivesse feito um bom trabalho.
Com o tempo, fui entendendo que a anamnese não se resume a completar campos. Ela exige escuta, organização do pensamento clínico e compreensão da história que está sendo contada.
Na graduação, participei, por seis meses, de um serviço de acolhimento, em que o atendimento funcionava, basicamente, como uma anamnese mais ampla, realizada ao longo de dois ou três encontros. Era essencial compreender bem o caso para pensar no melhor encaminhamento possível. Depois, passei mais seis meses atendendo em sala de espelho, sendo observada semanalmente por estudantes do curso de Medicina. Nesse contexto, eu também precisava preencher uma ficha que não era especificamente de anamnese, mas que exigia uma habilidade muito parecida: entender uma história para decidir um encaminhamento.
Ainda assim, foi quando comecei a realizar anamneses completas no contexto da avaliação psicológica que percebi o quanto o cenário muda. Nessa prática, não basta seguir uma sequência de perguntas. É preciso compreender o que cada tópico realmente pede, o que precisa ser investigado e como aquela informação ajuda a construir uma compreensão clínica do caso.
Foi nesse processo que me dei conta de algo importante: a conversa, a escuta e o ritmo da entrevista são muito mais importantes do que seguir à risca três páginas de perguntas.
A anamnese não é somente uma coleta de dados. Ela é uma forma de compreender a trajetória de vida da pessoa, suas experiências, seus vínculos, seus contextos e os sentidos que ela atribui ao que viveu. Na avaliação psicológica e no psicodiagnóstico, a entrevista de anamnese ajuda a organizar informações importantes da história da pessoa avaliada e a orientar hipóteses, objetivos e próximos passos do processo avaliativo.
Uma das mudanças que mais me ajudou foi substituir a pergunta: “o que eu pergunto aqui?” por outra: “o que eu preciso compreender com esse tópico?”. Essa pequena mudança torna a entrevista muito mais natural. Por exemplo:
Socialização: como essa pessoa se relaciona com outras pessoas ao longo da vida?
Contexto Familiar: como eram ou são os vínculos, a dinâmica familiar e os acontecimentos importantes nesse contexto?
Trajetória Escolar: como foi a experiência de aprendizagem e de convivência no ambiente escolar?
Trajetória Ocupacional: como essa pessoa funciona em contextos de trabalho, responsabilidades e relações profissionais?
Histórico Clínico e Hospitalizações: quais aspectos de saúde, desenvolvimento ou eventos clínicos podem ter impactado o funcionamento atual?
Quando olhamos para a ficha dessa forma, ela deixa de ser um roteiro rígido e passa a funcionar como um guia. Ela ajuda a lembrar dos temas importantes, mas não precisa determinar a ordem exata da conversa.
E aqui está um ponto essencial: não seguir a ficha como um interrogatório não significa conduzir a entrevista de forma desorganizada. Significa escutar a história da pessoa com atenção clínica e, ao mesmo tempo, usar a ficha para garantir que nenhum aspecto relevante fique de fora. Uma forma simples de começar é usar perguntas mais abertas, como:
“Me conta um pouco sobre a tua infância.”
“Como era a tua relação com a tua família?”
“Como foi a tua experiência na escola?”
“Como eram tuas amizades nessa época?”
“E hoje, como está tua vida?”
Muitas vezes, a pessoa responde espontaneamente vários itens da ficha em uma única fala. Ao falar da escola, por exemplo, pode contar que os pais se separaram na infância, que precisou mudar de cidade, que perdeu contato com amigos e que passou a ter dificuldades de aprendizagem. Em poucos minutos, ela trouxe elementos sobre trajetória escolar, contexto familiar, socialização e vivências emocionais.
Quando seguimos a ficha de forma muito rígida, corremos o risco de interromper uma narrativa importante apenas para “ir para o próximo item”. Por exemplo, se a pessoa diz: “sempre tive dificuldade para fazer amigos”, talvez esse seja um ponto que mereça ser explorado antes de seguir adiante. Podemos perguntar:
“Como era essa dificuldade?”
“Desde quando você percebe isso?”
“Acontecia em todos os lugares ou mais em alguns contextos?”
“Como você se sentia nessas situações?”
“Hoje isso ainda acontece?”
Uma única resposta como essa pode oferecer mais compreensão clínica do que várias perguntas fechadas respondidas rapidamente. Por isso, gosto de pensar que a ficha organiza os temas, mas a entrevista organiza a história.
Como Organizar a Anamnese sem Deixar a Entrevista Engessada
Uma estratégia que costuma facilitar bastante é imaginar a vida da pessoa como uma linha do tempo. Essa linha do tempo não precisa ser seguida de forma rígida, como se fosse um roteiro fechado. Ela funciona mais como um mapa para ajudar a psicóloga a organizar a escuta. Na prática, isso significa acompanhar a narrativa da pessoa e, depois, ir localizando os acontecimentos importantes ao longo da vida.
Na infância, podemos investigar:
O que acontecia nesse período?
Como era o ambiente familiar?
Como eram as relações com outras crianças?
Como foi o desenvolvimento e a entrada na escola?
O que foi marcante nessa fase?
Na adolescência, podemos pensar:
Quais mudanças ocorreram?
Como estavam as relações familiares e sociais?
Houve conflitos, perdas, mudanças ou dificuldades importantes?
Como foi a vivência escolar nessa etapa?
Como a pessoa se percebia nesse período?
Na vida adulta, podemos compreender:
Como se construiu a trajetória acadêmica ou profissional?
Como são os relacionamentos atuais?
Quais responsabilidades, dificuldades e demandas aparecem hoje?
Como a pessoa entende sua própria história até aqui?
Essa organização ajuda a entrevista a ter continuidade. Ao mesmo tempo, permite que a pessoa conte sua história de forma mais espontânea, sem que a conversa pareça uma sequência de perguntas soltas. Aos poucos, fui percebendo que uma boa anamnese não depende apenas de ter muitas perguntas prontas. Ela depende de saber ouvir, acompanhar o que aparece, retomar pontos importantes e entender por que determinada informação é relevante para aquele caso.
Exemplos Práticos
Socialização: quando a ficha apresenta apenas o item “socialização”, a questão principal não é simplesmente saber se a pessoa tem amigos. O objetivo é compreender como ela se relaciona com outras pessoas ao longo da vida. Algumas perguntas possíveis:
Como era sua relação com outras crianças na infância?
Você costumava fazer amizades com facilidade?
Preferia brincar sozinho ou em grupo?
Participava de atividades sociais, grupos ou brincadeiras coletivas?
Sofreu exclusão, bullying ou dificuldades de integração?
Como estão suas relações sociais atualmente?
Contexto Familiar: aqui, o objetivo não é apenas identificar quem compõe a família, mas compreender a qualidade dos vínculos, a dinâmica familiar e os acontecimentos importantes. Podemos perguntar:
Com quem você morava durante a infância?
Como era a convivência familiar?
Quem eram suas principais figuras de cuidado ou referência?
Havia conflitos frequentes?
Ocorreram separações, perdas, mudanças ou situações marcantes?
Como são essas relações atualmente?
Trajetória Escolar: na trajetória escolar, o foco não está apenas nas notas ou reprovações. É importante compreender como a pessoa viveu a escola. Algumas perguntas possíveis:
Como foi sua entrada na escola?
Você gostava de frequentar a escola?
Como era seu desempenho acadêmico?
Existiam disciplinas mais fáceis ou mais difíceis?
Teve dificuldades de aprendizagem?
Como era sua relação com professores e colegas?
Houve trocas de escola, repetências ou interrupções?
Trajetória Ocupacional: mais do que listar empregos, buscamos compreender como a pessoa funciona em contextos de trabalho, responsabilidade, rotina e relações profissionais. Podemos perguntar:
Com quantos anos começou a trabalhar?
Como foram suas primeiras experiências profissionais?
Como costuma ser sua relação com colegas e chefias?
Já enfrentou dificuldades para manter empregos?
Quais aspectos do trabalho considera mais desafiadores?
Como lida com rotina, prazos e responsabilidades?
No fim, talvez a anamnese fique mais leve quando deixamos de pensar apenas em preencher campos e passamos a compreender a entrevista como uma escuta orientada. A ficha continua sendo importante, mas ela não precisa conduzir a entrevista sozinha. Porque, afinal, não estamos apenas completando um formulário, estamos tentando compreender a vida de uma pessoa.
O formulário organiza informações. A entrevista organiza histórias.
Agradecimento
À Marina Silva Miranda, minha supervisora, que, além de me incentivar a ler o capítulo citado abaixo, compartilha semanalmente reflexões, orientações e aprendizados que têm me ajudado a qualificar minha escuta clínica e minha forma de conduzir entrevistas de anamnese.
Referência
SILVA, Mônia Aparecida; BANDEIRA, Denise Ruschel. A entrevista de anamnese. In: HUTZ, Claudio Simon; BANDEIRA, Denise Ruschel; TRENTINI, Clarissa Marceli; KRUG, Jefferson Silva (org.). Psicodiagnóstico. Porto Alegre: Artmed, 2016.